Você, que gosta de cinema – ou talvez até que não goste tanto assim – já ouviu falar certamente em filmes como O Poderoso Chefão, TaxiDriver, Bonnie & Clyde e Touro Indomável. Mas há na realização desses filmes algo que pode ser questionado se levarmos em consideração o contexto dos EUA da época: devido aos seus enredos, como é que esses filmes puderam ser feitos?
Os EUA viviam o auge da Guerra Fria e a disputa ideológica entre capitalistas e comunistas estava a todo vapor. Uma das armas usadas era justamente a produção cultural. Filmes e músicas estadunidenses eram utilizados para conseguir mostrar ao mundo como o lado capitalista era fantástico – e o mesmo acontecia do lado da URSS para o bloco socialista. A produção cultural norte-americana tentava demonstrar o tão famoso american way of life, com carros enormes, que gastam litros de gasolina, casas com quintais também enormes, cozinha com máquina de lavar louça etc, etc, etc. Vladimir Nabokov eternizou uma crítica no seu clássico Lolita chamando essa imagem construída de “o sonho Doris Day” dos americanos.
Mas os anos 50 foram difíceis para a produção cinematográfica. O número de espectadores despencou das salas de cinema. Foram milhões e milhões de pessoas que simplesmente pararam de ir às salas de projeção. Era uma situação pior do que no período da Grande Depressão, pós Crise de 1929. O motivo? O advento e popularização da televisão. Com ela era muito mais fácil: ficava-se em casa, vendo coisas diversas, mudando apenas o canal quando não se agradava com algo que estava passando.
Hollywood sentiu o baque. Os filmes não eram mais vistos e a indústria – porque sempre foi uma indústria! – sentia no bolso os problemas resultantes dessa diminuição. Faltou dinheiro para os produtores, para os diretores, para os atores. Para todo mundo, resumindo a história.
Nesse ponto entra o maravilhoso livro Como a geração sexo-drogas-e-rock’n roll salvou Holywood: Easy Riders, Raging Bulls, de Peter Biskind. Tendo sido editor-executivo da revista Première e editor-chefe da American Film, conheceu quase todo mundo da indústria e pode escrever sobre cinema em espaços do The New York Times, Los Angeles Times, The Washington Post, Rolling Stone entre tantos outros meios.
O livro já traz no título duas obras clássicas: Easy Rider (que no Brasil apareceu como Sem Destino) conta a história de dois sujeitos em suas motos, atravessando uma parte dos EUA, carregando drogas; e Raging Bull (no Brasil: Touro Indomável), sobre o boxeador Jake LaMotta, contanto desde sua ascensão até sua decadência. Ambos filmes são lendários, principalmente por mostrarem um país que não era aquilo que os políticos queriam vender. Violência, drogas e gente sem destino certo nos caminhos da vida. Era uma outra América; sem o sonho americano, claro.
Aqui entra o questionamento inicial: como foi possível fazer filmes como todos esses clássicos dos anos 60 e 70?
A crise financeira e a quase falência dos estúdios de Holywood frente ao advento e domínio da tv fizeram com que os produtores ficassem em uma encruzilhada: ou continuavam fazendo filmes iguais aos que já eram feitos e com isso construíam a definitiva ruína econômica da indústria cinematográfica... ou apostavam em jovens, com ideias novas de dramaturgia, muita droga e muito álcool no sangue, para que eles dessem uma mexida geral nas produções.
O livro de Biskind traz as histórias – públicas ou privadas, reais ou imaginadas – de todo esse período, que compreende os anos 60, 70, com Coppola, Scorsese, Robert Altman, Polanski, Kubrick (além de todos os atores e atrizes que até hoje nos encantam e estão em nosso imaginário), onde todo mundo ficou muito louco, muito briguento, muito chapado e muito, mas muito criativo, realizando alguns dos maiores filmes de toda história do cinema mundial. O livro vai até os anos 80, na era dos blockbusters, com Tubarão e Star Wars, onde alguns nerds como George Lucas e Steven Spielberg começaram a trazer mais dinheiro do que os loucos da década anterior.
Para quem é amante do cinema não há escapatória, tem que ler. Para quem não é, vai virar. É um livro longo: são mais de 450 páginas com letra miúda. Mas garanto que você vai ler como se ficasse preso em cada página, querendo saber a próxima história de loucura, briga, amor, sexo, droga ou rock’n roll, como, por exemplo, aquela vez em que o Dustin Hoffmann saiu correndo nu pelos corredores do quarto do hotel, gritando que...
(Originalmente em Jornal Opa! http://www.jornalopa.com.br/site/colunista/visualizar/id/230/?Hollywood-a-beira-da-falencia.html, em 08/03/2017)

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