Olho pela janelinha do avião e vejo o Rio se distanciar
cada vez mais. Enquanto observava, pensei que somente quem tem essa
possibilidade de vista, além de uma própria visão aguçada, pode ver a beleza
que é esse lugar. Um lugar que, parado na parada de ônibus, observando a
paisagem, vemos construções belíssimas que se ergueram em cima das pedras.
Maravilhoso! Sempre que venho saio bobo, saio contemplativo, saio feliz. E com
uma esperança perene de sempre voltar.
Essa viagem foi um tanto quanto diferente. E foi pelo
acontecimento de hoje. Estava eu à espera de uma mesa redonda, quando
anunciaram – professor Álvaro, organizador do evento – o nome do Marco
Lucchesi. Confesso que desde o momento que li seu nome do caderno de resumos,
fiquei pensativo para saber de onde o conhecia – seu nome apenas. Ao anunciá-lo
como professor do Departamento de Letras Português-Italiano, fiquei feliz, pelo
laço que nutro com tudo relacionado à Itália. Mas minha surpresa maior foi ver
aquele homem, que no mesmo momento me fez recordar a figura de Roberto Benigni
o qual por sua vez me fez recordar a mim mesmo num futuro imaginário. E como
cereja de bolo (ainda que eu não goste!) veio que ele é membro da Academia
Brasileira de Letras. Ele é um imortal. O professor Álvaro disse que ele
ficaria bravo com o anúncio posto que é tímido. E posto que para os bons isso
pouco interessa, de fato.
Pensei na maravilha que se montava às minhas vistas. Mas,
como ressabiado que sou, pensei também na possibilidade de que fosse um
intelectual enfadonho, como tantos que conheço, como os que tive a dura vida de
aguentar (até mesmo neste evento), como tantos que há por aí; basta
chacoalharmos as árvores.
Sua explanação era sobre Goethe e Dante. E para meu
encanto, surpresa, fascinação, e outros tantos sentimentos mais, não pude tirar
os olhos de sua imagem por um único segundo. E não pude porque não conseguia. E
não queria.
Aquele homem, que falava muito claramente, que se
expressava à la italiana, poliglota,
intelectual de verdade e de bondade, foi o expositor mais maravilhoso que pude
presenciar até o momento de minha vida acadêmica. Terminou sua exposição
dizendo que “Goethe escreveu o início da Divina Comédia e Dante terminou
Fausto”. Estupendo!
Ao terminar sua fala, foi se levantando (nós já tínhamos sido
avisados no início), pedindo desculpas, pois ele tinha que sair porque deixara
seus alunos na Biblioteca, que era o seu lugar preferido para dar aulas. Dizia
que aceitara o convite do professor Álvaro, mas não podia ficar para o debate.
Como é brincalhão – fato que pôde ser visto pela sua apresentação! – disse que
alguém poderia segui-lo para comprovar que iria mesmo dar aula. E seria uma
aula sobre verbos italianos.
Eu fiquei bobo. Ele realmente se mostrou muito bom. Eu
estava fascinado.
Iniciou-se a apresentação do outro professor, mas ficou em
mim a inquietação. Não pude resistir. Em um ímpeto peguei minhas coisas, sai do
auditório e fui me informar onde ficava a Biblioteca. Fui e como sou liso para
essas situações, achei o local em uma epopeia, pois de onde estava era longe e
eu nunca havia estado no Campus do Fundão da UFRJ. Entrei, fiquei uns segundos
à procura, até que o encontrei em pé, falando para alunos que estavam em volta
de uma grande mesa, num dos cantos do mundo imenso. Era ele, era Roberto,
talvez fosse eu, gesticulando e estilizando a nossa maior arma: a fala.
Fiquei rodeando, dei uma olhada, parei-me próximo a uma
estante de livros e não me aguentei. Aproximei-me e perguntei se podia assistir
sua aula. Para minha surpresa, ele me olhou e disse:
–
É agente da CIA?
–
Não! – respondi abrindo um sorriso.
– Então pode! – me
responde também sorrindo. Assim como todos os seus alunos.
Puxei uma cadeira, sentei-me e ouvi-o. Falava sobre ópera,
pois estavam lendo um trecho de uma italiana. Fez piada, criticando os atores
de ópera, daí subitamente me olhou:
–
É cantor de ópera? – me perguntou.
–
Não...
–
Que bom. Mas posso criticar porque eu sou.
Cada novo diálogo eu o achava mais surpreendente.
Quando questionou sobre o passado de um verbo em italiano,
ninguém respondeu. Ele então olhou para mim:
–
Você?
–
Não sei – e todos novamente riram.
Mas o mais engraçado é que ao fim da leitura de um
determinado trecho, ele questionou a turma se alguém tinha alguma dúvida.
Ninguém se manifestou. Ele disse então:
–
Dez reais por dúvida!
Uma moça levantou o braço.
Na hora ele respondeu a ela:
–
Ele paga! – apontando pra mim.
Eu acho que meu sorriso não podia contentar-se dentro de
meu rosto. Ele é realmente um professor fantástico! Ao final da aula, os alunos
se levantaram para ir embora; eu tentei dar uma pequena contribuição, dizendo
para a moça que havia feito a pergunta:
–
Estou te devendo dez reais!
E todos riram.
Ele sentou-se do meu lado, estendendo sua mão.
Seguimos em uma conversa por quase meia hora, tanto dentro
da Biblioteca quanto pelo corredor da UFRJ. Falamos sobre tantas coisas
diversas: estudos, viagens, sobrenomes. Mantenho nosso diálogo no campo da
memória, para sempre me recordar nos momentos propícios. Mas posso dizer que a
vinda ao Rio valeu à pena. Que há ética, que há paixão pelo conhecimento, que
há o imortal que é imortal pela forma como é enquanto ser humano. Posso afirmar
também que o justo trabalho acadêmico – fiel ao saber pela pureza do saber,
também vale a pena. E que, principalmente, viver – vivere – vale a pena!
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