domingo, 4 de junho de 2017

Fabíola lê livros de filosofia



Tenho um grande amigo chamado Fábio. Por ironia do destino, namora uma mulher chamada Fabíola. Ela tornou-se uma amiga fundamental e, com ela, posso conversar sobre todos os assuntos que esta coluna receberá com meu nome. Fabíola é portenha e mora – devido ao seu trabalho – um tanto aqui em Porto Alegre e um tanto em Buenos Aires. Um sonho, para mim. Além do fato que de Fabíola lê livros de filosofia.
Quase todas as vezes em que estive em Buenos Aires, dei sorte que a Fabíola estava por lá também. Como o trabalho dela é bem flexível em horários, sempre nos encontramos para passear pela cidade. Brincamos que nos vemos mais lá do que aqui. E eu tenho a sorte de poder ter uma guia que já me mostrou toda a cidade, além de me explicar como funciona a divisão dos números pelas ruas e sua lógica, o que permite que qualquer um saiba em que local da cidade está somente observando os números dos prédios nas ruas.
Foi com ela que eu aprendi que a Feira do Livro de Buenos Aires fica todo ano competindo com a da Cidade do México para ver qual das duas será a maior. A mexicana eu não conheço, mas a portenha eu já fui duas vezes e posso garantir: é uma coisa inimaginável! Sem falar nas presenças: Paul Auster, Coetzee, Saramago, Susan Sontag, Vargas Llosa, Alberto Manguel e Alessandro Baricco esse ano, entre tantas outras personalidades.
Na última vez que estive lá, nos encontramos e fomos conhecer o Once, a parte dos bairros de trabalhadores e almoçamos em um Bodegón tradicional, com cerveja Quilmes e chorizo por 20,00 reais. No caminho, pegando o metro, em determinado momento Fabíola procurou algo em sua bolsa e achou também um livro. Era Cinismos. Retrato de los filosofos llamados perros, do filósofo francês Michel Onfray. Ela me disse que eu precisava ler, porque era muito bom.
Fiquei pasmado com isso. Fabíola é uma leitora voraz. Claramente é interessada em livros de ciências sociais, porque estudara isso na graduação. Mas não trabalha com isso. Ela é analista de sistemas. Mas Fabíola lê livros de filosofia quando não está ocupada.
Desde a primeira viagem que fiz a Argentina, sabia por amigos que lá era um lugar de muitas livrarias. O que é uma maravilha, porque caminhamos por qualquer bairro e, de repente, topamos com uma loja de livros, novos ou usados. Mas também pude notar que as pessoas carregam livros na rua, dentro de suas bolsas e até mesmo os comerciantes de rua, quando não estão atendendo a algum cliente, permanecem em frente aos seus produtos lendo algo.
Certa vez, em uma reportagem na Revista da Cultura (edição 90 – janeiro/2015), o autor, Christian Petermann, trazia um bom argumento sobre os motivos de o cinema argentino ser considerado internacionalmente a frente, por exemplo, em relação ao cinema brasileiro. Um dos motivos era o fato de que os argentinos têm uma média de leitura muito mais elevada que os brasileiros, cujos dados são pífios. Outro fator era a não existência de novelas como as da Globo, que, por terem enredos mais simples, desacostumavam os espectadores brasileiros a tramas mais densas, segundo o autor da reportagem. Essas ideias já faziam muito sentido pra mim, mas ao visitar o país hermano pude comprovar observando os costumes dos habitantes.
Era algo extraordinário ver que minha amiga estava lendo um livro de filosofia enquanto andava de metro, de ônibus ou enquanto sentava em um dos maravilhosos cafés portenhos para tomar algo e comer uma medialuna. Ela me falava que o autor era muito bom, que ele tinha escrito vários livros e que eu iria me interessar muito.
Durante todos esses anos dando aula, sempre defendi com unhas e dentes que meus alunos deveriam ler. Sempre discursei em sala que, em um país que não lê, como é o nosso, os alunos deveriam receber uma educação onde, primeiramente, eles aprendessem a ler e tomassem gosto pela coisa. Por isso sempre indiquei livros relacionados a História como O Chalaça, de José Roberto Torero, engraçadíssimo e prazeroso, para falar do período de D. Pedro I; ou O Xangô de Baker Street, de Jô Soares, mais divertido ainda, sobre o período de D. Pedro II. Para alunos que, em sua maioria, não fazem a menor ideia de como começar a ler, isso pode ajudá-los. Machado de Assis foi e sempre será o nosso maior prosador, mas um aluno de Ensino Médio que não entende o que é ironia fina – porque está envolto em uma série de coisas bizarras e simples na internet – não poderá compreender a graça e beleza do texto machadiano.
Em um país como o nosso, há: 1º) que fazer com que as pessoas comecem a ler; 2º) que não parem de ler; e 3º) que abram as possibilidades para ver Machado – e Drummond, Guimarães Rosa, João Cabral, Luiz Ruffato etc – como uma grande aventura depois de um tempo de leitura.
Assim vamos mudando, até que um dia possamos ver as pessoas lendo filosofia nos bancos dos ônibus ou dos metros. Talvez isso melhore nossa política, nosso cinema (que já avança muito nos últimos anos!), nossos alunos enquanto pessoas críticas e conscientes e não apenas como seres rasos em argumentação e compreensão de mundo.
E quem sabe as coisas mudem tanto, que a Fabíola não possa mais responder quando alguém lhe diz que nós temos 5 Copas do Mundo mostrando uma mão aberta: “E nós temos 5 Prêmios Nobel”. A conversa geralmente acaba por aí...


(A tempo: deveriam ter tido mais 3, com Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares.)

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