Tenho um grande amigo chamado Fábio. Por
ironia do destino, namora uma mulher chamada Fabíola. Ela tornou-se uma amiga
fundamental e, com ela, posso conversar sobre todos os assuntos que esta coluna
receberá com meu nome. Fabíola é portenha e mora – devido ao seu trabalho – um
tanto aqui em Porto Alegre e um tanto em Buenos Aires. Um sonho, para mim. Além
do fato que de Fabíola lê livros de filosofia.
Quase todas as vezes em que estive em Buenos
Aires, dei sorte que a Fabíola estava por lá também. Como o trabalho dela é bem
flexível em horários, sempre nos encontramos para passear pela cidade. Brincamos
que nos vemos mais lá do que aqui. E eu tenho a sorte de poder ter uma guia que
já me mostrou toda a cidade, além de me explicar como funciona a divisão dos
números pelas ruas e sua lógica, o que permite que qualquer um saiba em que
local da cidade está somente observando os números dos prédios nas ruas.
Foi com ela que eu aprendi que a Feira do
Livro de Buenos Aires fica todo ano competindo com a da Cidade do México para
ver qual das duas será a maior. A mexicana eu não conheço, mas a portenha eu já
fui duas vezes e posso garantir: é uma coisa inimaginável! Sem falar nas
presenças: Paul Auster, Coetzee, Saramago, Susan Sontag, Vargas Llosa, Alberto
Manguel e Alessandro Baricco esse ano, entre tantas outras personalidades.
Na última vez que estive lá, nos
encontramos e fomos conhecer o Once,
a parte dos bairros de trabalhadores e almoçamos em um Bodegón tradicional, com cerveja Quilmes e chorizo por
20,00 reais. No caminho, pegando o metro, em determinado momento Fabíola
procurou algo em sua bolsa e achou também um livro. Era Cinismos. Retrato de los filosofos llamados perros, do filósofo
francês Michel Onfray. Ela me disse que eu precisava ler, porque era muito bom.
Fiquei pasmado com isso. Fabíola é uma
leitora voraz. Claramente é interessada em livros de ciências sociais, porque
estudara isso na graduação. Mas não trabalha com isso. Ela é analista de
sistemas. Mas Fabíola lê livros de filosofia quando não está ocupada.
Desde a primeira viagem que fiz a
Argentina, sabia por amigos que lá era um lugar de muitas livrarias. O que é
uma maravilha, porque caminhamos por qualquer bairro e, de repente, topamos com
uma loja de livros, novos ou usados. Mas também pude notar que as pessoas
carregam livros na rua, dentro de suas bolsas e até mesmo os comerciantes de
rua, quando não estão atendendo a algum cliente, permanecem em frente aos seus
produtos lendo algo.
Certa vez, em uma reportagem na Revista da Cultura (edição 90 –
janeiro/2015), o autor, Christian Petermann, trazia um bom argumento sobre os
motivos de o cinema argentino ser considerado internacionalmente a frente, por
exemplo, em relação ao cinema brasileiro. Um dos motivos era o fato de que os
argentinos têm uma média de leitura muito mais elevada que os brasileiros,
cujos dados são pífios. Outro fator era a não existência de novelas como as da
Globo, que, por terem enredos mais simples, desacostumavam os espectadores
brasileiros a tramas mais densas, segundo o autor da reportagem. Essas ideias
já faziam muito sentido pra mim, mas ao visitar o país hermano pude comprovar observando os costumes dos habitantes.
Era algo extraordinário ver que minha
amiga estava lendo um livro de filosofia enquanto andava de metro, de ônibus ou
enquanto sentava em um dos maravilhosos cafés portenhos para tomar algo e comer
uma medialuna. Ela me falava que o
autor era muito bom, que ele tinha escrito vários livros e que eu iria me
interessar muito.
Durante todos esses anos dando aula,
sempre defendi com unhas e dentes que meus alunos deveriam ler. Sempre
discursei em sala que, em um país que não lê, como é o nosso, os alunos
deveriam receber uma educação onde, primeiramente, eles aprendessem a ler e
tomassem gosto pela coisa. Por isso sempre indiquei livros relacionados a
História como O Chalaça, de José
Roberto Torero, engraçadíssimo e prazeroso, para falar do período de D. Pedro
I; ou O Xangô de Baker Street, de Jô
Soares, mais divertido ainda, sobre o período de D. Pedro II. Para alunos que,
em sua maioria, não fazem a menor ideia de como começar a ler, isso pode
ajudá-los. Machado de Assis foi e sempre será o nosso maior prosador, mas um
aluno de Ensino Médio que não entende o que é ironia fina – porque está envolto
em uma série de coisas bizarras e simples na internet – não poderá compreender
a graça e beleza do texto machadiano.
Em um país como o nosso, há: 1º) que fazer
com que as pessoas comecem a ler; 2º) que não parem de ler; e 3º) que abram as
possibilidades para ver Machado – e Drummond, Guimarães Rosa, João Cabral, Luiz
Ruffato etc – como uma grande aventura depois de um tempo de leitura.
Assim vamos mudando, até que um dia
possamos ver as pessoas lendo filosofia nos bancos dos ônibus ou dos metros.
Talvez isso melhore nossa política, nosso cinema (que já avança muito nos
últimos anos!), nossos alunos enquanto pessoas críticas e conscientes e não
apenas como seres rasos em argumentação e compreensão de mundo.
E quem sabe as coisas mudem tanto, que a
Fabíola não possa mais responder quando alguém lhe diz que nós temos 5 Copas do
Mundo mostrando uma mão aberta: “E nós temos 5 Prêmios Nobel”. A conversa
geralmente acaba por aí...
(A tempo: deveriam ter tido mais 3, com
Jorge Luis Borges, Julio Cortázar e Adolfo Bioy Casares.)

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