Fiódor Dostoievski disse, certa vez, que
“a beleza salvará o mundo”. E isso, pensando em seu niilismo e tristeza
melancólica, era sua esperança. No futuro, as coisas seriam tão estranhamente
absurdas que, talvez, apenas a beleza pudesse salvar o que restasse de mundo.
Seria algo como a “flor que nasce no asfalto”, como dizia o nosso amado
Drummond.
Se o que é belo deve ser celebrado, quando
encontramos algo belo e que nos agrada de maneira pessoal (porque nem tudo o
que é belo pode nos agradar pessoalmente; e nem tudo que nos agrada é
esteticamente belo), temos que celebrar mais ainda. Oswaldo Montenegro disse na
sua música gostar de “cantora bem rouca” e nisso eu concordo plenamente com
ele. Acho que uma das coisas que mais me agrada em momentos de desânimo e
revolta é escutar Janis Joplin cantando “Oh, Lond, won’t you buy me a Mercedes
Benz?” Nesse momento, minha raiva passa e eu coloco essa ironia no mesmo
patamar dos livros do Bruxo Machado. Geralmente fico feliz e rindo e me perguntando
– tanto sobre Joplin quanto sobre Machado: como eles foram capazes de fazer
algo assim?
Mas, enfim, se uma cantora rouca pode nos
deixar extasiados, creio que um dos melhores exemplos que me ocorreu na semana
passada foi o show da cantora francesa Zaz, em Porto Alegre. Da outra vez que
ela veio, não fui ao show. Mas gostava das suas músicas desde aquela época,
principalmente o seu disco com músicas sobre Paris. Talvez um dos discos que
mais me agradam as músicas todas.
Zaz (cujo nome é Isabelle Geffroy) veio a
Porto Alegre de novo. Cantora do interior da França, inspirada nas canções de Edith
Piaf, Charles Aznavour, Claude Nougaro, que um dia deixou a sua cidade, Chambray-lès-Tours, em direção a Paris
para tentar a vida cantando, teve a sorte de encontrar o cantor e compositor
Raphaël Haroche, que escreveu várias músicas pensando em sua voz. A mesma voz
que, diga-se de passagem, rendeu-lhe algumas críticas. O que importa é que ela
pegou a música francesa, deu um pitada de jazz, suingue, rouquidão e muita
alegria de estar no palco.
Cheguei ao Auditório Araújo Viana ansioso
com o espetáculo. Tinha visto algumas cenas no Youtube.com e o show Mise en Scène parecia uma experiência
visual interessantíssima. Não estava errado. Com muitas cores, muitas projeções,
muito uso do recurso imagético, a construção do show é um espetáculo à parte.
Mas é a Zaz que deixa qualquer um bobo. Se
Aristóteles acreditava que cada pessoa tem um direcionamento natural e que a eudaimonia, a felicidade, era fazer
aquilo para o que se nasceu, posso dizer que Zaz acertou em cheio. Eu nunca
tinha visto ninguém tão feliz em um palco como ela. Há as pessoas que dominam o
palco e o conhecem como a palma das suas mãos. A Ivete Sangalo é uma dessas
pessoas. Há também aqueles em que você sabe que, mesmo não parecendo, têm o
controle sobre tudo o que está ao redor, como no show de comemoração de Caetano
e Gil ou em algum espetáculo de Maria Bethânia.
Entretanto, Zaz é feliz demais – e podemos
notar isso. Fala desesperadamente, mesmo com a maior parte das pessoas não
entendendo direito o que ela está dizendo – um tanto porque não fala francês e
outro tanto porque não consegue pegar as frases rápidas e seu sotaque de fora
de Paris. Sabe que naquele momento, ela está transbordando felicidade para um
monte de gente. Dança loucamente a cada música. E não dança somente para o
público, mas também para ela. De vez em quando ela sai de cena e, quando nossos
olhos conseguem encontrá-la, está atrás da bateria dançando.
Talvez como uma mulher do século XXI que
defende causas, aproveitou sua visibilidade para fazer duas apresentações de
ONG’s porto-alegrenses no meio do espetáculo. Fez questão de fazer discurso
sobre a importância daqueles trabalhos.
Sabe que aquele palco é o seu lugar e sabe
que não quer deixá-lo por nada. Sabe que a sua arte é repleta de beleza. Se não
entendemos direito porque algo é considerado belo, se não achamos mais ser
possível existir algo bonito em meio ao famigerado século XXI e seu ódio e suas
idiossincrasias... escutar a voz rouca de Zaz pode ajudar a compreender o
primeiro ponto e amenizar a agonia do segundo.
O palco é tão seu que ela não vai embora
nem quando o show acaba. Em Porto Alegre ela ficou depois do show assinando
camisetas que lhe eram jogadas, sentada no tablado, enquanto os músicos e o
público saiam.
Zaz ajudará a salvar o mundo. Só
precisamos de mais Zaz surgindo por aí...

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