terça-feira, 23 de maio de 2017

Claire Underwood é mais importante em House of Cards do que Francis?

      Esses tempos atrás eu me surpreendi com duas coisas: saiu a notícia de que Robin Wright (a atriz que interpreta Claire Undewood em House of Cards) exigiu dos produtores um salário equiparado ao de Kevin Spacey para continuar na série e a enxurrada de comentários sobre o assunto nas redes sociais. Aprendi, com isso, duas coisas também: gosto cada vez mais de Robin Wright e ler comentários em matérias publicadas pode gerar câncer – ou, no mínimo, azia e refluxo.

       Nessa coluna, começo com um questionamento sobre ser a personagem de Robin mais importante que a de Spacey. Acredito que a partir da temporada dois, realmente são, um como o outro, igualmente importantes em protagonismo. Mas quero me atentar à primeira temporada da série, em que Claire é, certamente, mais importante do que Francis.

       Para nós, brasileiros, isso pode parecer estranho. Mas nós não compreendemos como funciona a eleição americana, ainda que a cada quatro anos apareçam tentativas e mais tentativas de jornalistas de nos explicarem a eleição por Estado, por delegado eleitoral, por voto não obrigatório etc. Não tentarei explicar essa parte do processo por aqui por questões de espaço da coluna...

       Mas quero partir do caso Watergate, que foi um grande escândalo de corrupção envolvendo o Presidente Richard Nixon a partir de 1972, com a denúncia de algumas gravações envolvendo o presidente com o recebimento de propina desde a época da candidatura, e culminando com sua renúncia em 1974. Após esse evento, houve uma “reforma” política feita pelo Congresso. O que eles determinaram era que o financiamento de campanha de quaisquer candidatos passariam a ter um teto, que é bem baixo, diga-se de passagem, para doações pessoais ou de empresas. Levando em consideração que nos EUA não há leis que imponham propagandas políticas gratuitas, o gasto com a campanha pode ser estratosférico – como já foi! Na disputa entre Obama e McCain, por exemplo, cada um gastou mais de um bilhão de dólares entre as prévias e a campanha.

      Nesse ponto entram os “doadores fantasmas”. Sempre se encontra uma brecha na lei para permitir – ou pelo menos justificar – algum ato ilícito, porque, afinal de contas, a lei não é perfeita, mítica, única e universal. No caso dos EUA, qualquer pessoa ou instituição podem fazer campanha política para seu candidato. Não à toa alguns meios de comunicação abertamente dão seu apoio a um ou outro candidato (há, inclusive, uma ótima matéria de Daniela Pinheiro, chamada “O jornalismo pós-Trump”, na revista piauí, edição 123, contando sobre os jornais que cobriam a eleição de Trump e o sentimento de dever não cumprido e erro na exposição sobre o candidato quando o resultado deu a vitória ao republicano). A campanha que essas organizações podem fazer permite até mesmo compra de horários na tv, que lá custam uma fortuna inimaginável. A única restrição: não aparecer o nome do candidato. Assim, há empresas que fazem comerciais – pró-alguém ou contra alguém – que saem nos horários nobres. Não aparecem nomes, mas todos entendem sobre quem ou o que se tratam.

      As ONG’s fazem muito isso. Um “doador fantasma” pode doar milhões para um ONG, porque lei nenhuma proíbe a doação. E a ONG faz a campanha para algum candidato. Assim, as ONG’s podem ser usadas como uma espécie de lavagem de caixa 2, caso possamos conceituar assim. O protagonismo de Claire Underwood aparece aqui.

      Na primeira temporada, grande parte das cenas em que ela aparece acontecia na ONG de sua coordenação. Assim, podemos compreender que ela era o receptáculo de dinheiro para propaganda que permitia que Francis Underwood pudesse usar como argumento para conseguir doações de empresas em troca de benefícios nas licitações, decididas pelos eleitos com essa “ajuda”. Como aquele congressista poderia ter se tornado tão importante e tão poderoso dentro do Congresso, vindo de onde vinha e não sendo popular? O que ele tinha a oferecer aos políticos americanos era um esquema muito bem organizado, baseado na cooptação de dinheiro para campanha e para propina, que era lavado pela ONG da sua esposa, que era quem mantinha tudo em ordem para que não fosse nada descoberto. Uma dupla, onde um era responsável direto pelo que o outro fazia. Mas ela era mais importante, porque lidava com o dinheiro. O poder era, de fato, compartilhado por eles, mas Francis permanecia nas mãos da esposa.

      Nenhum detalhe em política pode ser subjugado. Nada está ali por acaso. As relações políticas são sempre mais complexas do que imaginamos quando estamos discutindo numa mesa de bar ou em um jantar com amigos ou família.


      E você achando que ela estava preocupada com a falta de água na África, não?





(Publicado orignalmente no Jornal Opa! http://www.jornalopa.com.br/site/colunista/visualizar/id/235/?Claire-Underwood-e-mais-importante-em-House-of-Cards-do-que-Francis.html em 17/03/2017)

Hollywood à beira da falência

     Você, que gosta de cinema – ou talvez até que não goste tanto assim – já ouviu falar certamente em filmes como O Poderoso Chefão, TaxiDriver, Bonnie & Clyde e Touro Indomável. Mas há na realização desses filmes algo que pode ser questionado se levarmos em consideração o contexto dos EUA da época: devido aos seus enredos, como é que esses filmes puderam ser feitos?
     Os EUA viviam o auge da Guerra Fria e a disputa ideológica entre capitalistas e comunistas estava a todo vapor. Uma das armas usadas era justamente a produção cultural. Filmes e músicas estadunidenses eram utilizados para conseguir mostrar ao mundo como o lado capitalista era fantástico – e o mesmo acontecia do lado da URSS para o bloco socialista. A produção cultural norte-americana tentava demonstrar o tão famoso american way of life, com carros enormes, que gastam litros de gasolina, casas com quintais também enormes, cozinha com máquina de lavar louça etc, etc, etc. Vladimir Nabokov eternizou uma crítica no seu clássico Lolita chamando essa imagem construída de “o sonho Doris Day” dos americanos.
      Mas os anos 50 foram difíceis para a produção cinematográfica. O número de espectadores despencou das salas de cinema. Foram milhões e milhões de pessoas que simplesmente pararam de ir às salas de projeção. Era uma situação pior do que no período da Grande Depressão, pós Crise de 1929. O motivo? O advento e popularização da televisão. Com ela era muito mais fácil: ficava-se em casa, vendo coisas diversas, mudando apenas o canal quando não se agradava com algo que estava passando.
      Hollywood sentiu o baque. Os filmes não eram mais vistos e a indústria – porque sempre foi uma indústria! – sentia no bolso os problemas resultantes dessa diminuição. Faltou dinheiro para os produtores, para os diretores, para os atores. Para todo mundo, resumindo a história.


     Nesse ponto entra o maravilhoso livro Como a geração sexo-drogas-e-rock’n roll salvou Holywood: Easy Riders, Raging Bulls, de Peter Biskind. Tendo sido editor-executivo da revista Première e editor-chefe da American Film, conheceu quase todo mundo da indústria e pode escrever sobre cinema em espaços do The New York Times, Los Angeles Times, The Washington Post, Rolling Stone entre tantos outros meios.
    O livro já traz no título duas obras clássicas: Easy Rider (que no Brasil apareceu como Sem Destino) conta a história de dois sujeitos em suas motos, atravessando uma parte dos EUA, carregando drogas; e Raging Bull (no Brasil:  Touro Indomável), sobre o boxeador Jake LaMotta, contanto desde sua ascensão até sua decadência. Ambos filmes são lendários, principalmente por mostrarem um país que não era aquilo que os políticos queriam vender. Violência, drogas e gente sem destino certo nos caminhos da vida. Era uma outra América; sem o sonho americano, claro.
     Aqui entra o questionamento inicial: como foi possível fazer filmes como todos esses clássicos dos anos 60 e 70?
     A crise financeira e a quase falência dos estúdios de Holywood frente ao advento e domínio da tv fizeram com que os produtores ficassem em uma encruzilhada: ou continuavam fazendo filmes iguais aos que já eram feitos e com isso construíam a definitiva ruína econômica da indústria cinematográfica... ou apostavam em jovens, com ideias novas de dramaturgia, muita droga e muito álcool no sangue, para que eles dessem uma mexida geral nas produções.
     O livro de Biskind traz as histórias – públicas ou privadas, reais ou imaginadas – de todo esse período, que compreende os anos 60, 70, com Coppola, Scorsese, Robert Altman, Polanski, Kubrick (além de todos os atores e atrizes que até hoje nos encantam e estão em nosso imaginário), onde todo mundo ficou muito louco, muito briguento, muito chapado e muito, mas muito criativo, realizando alguns dos maiores filmes de toda história do cinema mundial. O livro vai até os anos 80, na era dos blockbusters, com Tubarão e Star Wars, onde alguns nerds como George Lucas e Steven Spielberg começaram a trazer mais dinheiro do que os loucos da década anterior.

     Para quem é amante do cinema não há escapatória, tem que ler. Para quem não é, vai virar. É um livro longo: são mais de 450 páginas com letra miúda. Mas garanto que você vai ler como se ficasse preso em cada página, querendo saber a próxima história de loucura, briga, amor, sexo, droga ou rock’n roll, como, por exemplo, aquela vez em que o Dustin Hoffmann saiu correndo nu pelos corredores do quarto do hotel, gritando que...


(Originalmente em Jornal Opa! http://www.jornalopa.com.br/site/colunista/visualizar/id/230/?Hollywood-a-beira-da-falencia.html, em 08/03/2017)

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Afinal, não me pareceu um musical...



Eu fui assistir ao filme La La Land por duas razões: a primeira era porque eu li várias reportagens dizendo que ele era um filme para o verão, em que todo mundo ia se divertir e porque era um forte candidato a vários Oscars; a segunda é porque eu queria ver se era tudo isso mesmo.
Ainda mais que, em uma conversa com um amigo, fiquei sabendo que o diretor e autor do roteiro era o mesmo cara que tinha feito Whiplash, que foi um dos filmes mais incríveis e tensos que assisti nos últimos tempos. Meu amigo me contou sobre o fato de o diretor ter pretendido fazer La La Land antes, mas nenhum estúdio abriu as portas para um estreante com o intuito de gastar tanto dinheiro como seria necessário para aquele musical. Por isso, Whiplash foi escrito com raiva, para provar que ele podia fazer. Deu certo. Foi um monstro na direção com baixo orçamento. O que poderia fazer agora que tinha conseguido rios de dinheiro?
Confesso que fiquei desesperado no início do filme. Aquela cena inicial me deixou de cabelo em pé e um prenúncio de sono. Mas não sou assim tão suscetível a esse tipo de desencorajamento fílmico. Já assisti a filmes franceses, iugoslavos e iranianos que me pediram mais do que um musical hollywoodiano. Não poderia simplesmente perder meu ingresso com uma cochilada que depois inviabilizaria a compreensão da trama. Ainda bem que não dormi.
A história poderia parecer bobinha. Uma aspirante a atriz, que trabalha em um café, conhece um músico revoltado, que não consegue estabilidade, cujo sonho é abrir um bar de jazz. Seu intuito eu gosto muito. Ele quer um bar ao estilo clássico, porque acredita que o jazz cada vez mais está morrendo e ele vê isso como uma catástrofe – principalmente porque anda surgindo um tipo de jazz de novidade, mesclando uns sons eletrônicos, que colocariam Charlie Parker a se enfiar mais e mais nas drogas, por motivo de tristeza com isso.
Eles acabam se relacionando e a trama vai tomando seus caminhos. Não vou relatar mais, porque haveria revolta.
Mas o que mais me deixou impressionado ao sair da sala do cinema foi todo o questionamento que os rumos da história me fizeram ter. Sai atordoado, sem conseguir andar direito, perdendo os sentidos de direção. O silêncio me tomou por horas e eu só podia ficar pensando nesses problemas que me surgiram.
Aos que me conhecem e já tiveram conversas comigo, sabem o meu apreço pelo existencialismo. O sartreano, teoricamente, e o de Camus, literariamente (ainda que ele não se enquadrasse oficialmente a essa corrente de pensamento). Ao pensar n’O Estrangeiro, de Camus, e em todo o fato de o personagem principal não saber responder os motivos de suas ações para as pessoas que o questionavam, lembrei-me do filme. Ao pensar na teoria de Sartre, em que o sujeito deve ter a consciência de suas ações e, portanto, que as reações que são advindas dessas ações tomadas pelo próprio sujeito são, perfeitamente, responsabilidade do sujeito – que não deve fugir da responsabilidade de seus atos – pensei no filme.
O que quero dizer com tudo isso?
Foi um filme que me fez pensar sobre três problemas fundamentais:

a) a fragilidade da vontade pessoal frente à manutenção de um relacionamento amoroso. Ou seja, em quais lugares se escondem as vontades que baseavam uma vida única quando se assume uma vida em conjunto? Eu poderia citar inúmeros exemplos da vida real, de pessoas que me cercam. O que fazemos com aquele sonho de ser astronauta, jogador de futebol, piloto de caças (são exemplos, obviamente, exagerados) quando lidamos com o que se pode ser construído na vida a dois? Talvez seja esse um dos motivos pelos quais Bauman apontava para a modernidade como a época em que haveria cada vez mais uma liquidez nas relações humanas – e nos relacionamentos amorosos.

b) a imposição das necessidades da vida prática frente a essas mesmas vontades pessoais. Para mim, a história ensinou algumas coisas que postulam verdades incontestáveis – principalmente para alguém que já passou por algum tipo de problema financeiro. Por exemplo: a crise de 1929, em que o Brasil foi afetado de maneira bastante forte na exportação do café – isso gerou a crise da República Velha, a derrota de Getúlio nas eleições e a tomada de poder com a “Revolução” de 30, que para sanar o problema financeiro do café, resolveu queimá-lo, para rarear o produtor e, portanto, aumentar seu valor. O que isso demonstra a qualquer leitor: em épocas de crise, come-se arroz e dispensa-se a sobremesa (o café). Mas o que isso tem a ver com La La Land? A vida nos impõe ações práticas que vão desde o pagamento do aluguel até a compra dos alimentos para que não passemos fome, logo, como manter as nossas vontades pessoais (podemos aqui também chamá-las de sonhos) frente a essas necessidades?

c) a aceitação frente às mudanças que o percurso da vida impõe à nossa própria existência. É sabido que sofremos aquilo que as nossas decisões nos direcionaram – num existencialismo puro. E que, mesmo tendo tido outro caminho tomado, este caminho imporia novos sofrimentos que são inerentes a essas outras escolhas. A vida é, portanto, saber que cada caminho nos direciona para um tipo de felicidade e também traz consigo um tipo de tristeza. Outro caminho tomado traria outra – ou outras – felicidade, carregada de um saco de tristeza diferente. Quando penso no filme, penso em: há possibilidade do uso da razão para a compreensão das alegrias e das tristezas que trouxeram os caminhos que escolhemos? Há como usar da razão? Disso não tenho dúvida. Só não acho que essa seja a regra; muito pelo contrário. Li em algum lugar que os romanos só foram o que foram, porque não tiveram que estudar latim; já nasciam falando. Acho que algo parecido com a humanidade em relação ao viver.

Por fim, não deixem de assistir ao filme. Afinal, não me pareceu um musical...



quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Travessuras de Mario Vargas Llosa...

“Qual é a verdadeira face do amor?” Está pergunta pode soar meio banal, concordo! Pode até se parecer com as capas daqueles livrinhos que se compram nas bancas, com histórias românticas e que custam apenas um real... concordo!
Mas não é nada disso. É o que se questiona a contracapa de um livro que muito me fez pensar. Confesso que li tarde o romance Travessuras da Menina Má, do peruano Mario Vargas Llosa, que no ano de 2010 ganhou o tão esperado Nobel. Sempre quis comprar esse livro, pois quando ele foi lançado eu estava na minha primeira aventura por esse mundo desse autor. Havia ganho Pantaleão e as Visitadoras, que me encantou de tal forma que senti que me tornava fã. Mas não pude comprar o outro, havia livros que estavam na frente em minha lista… Achei, tempos atrás, um exemplar do Travessuras… em edição de bolso, que se encaixava perfeitamente aos meus anseios.
Fiquei maturando-o na estante, assim como tantos outros títulos ainda lá estão. Era livro relativamente grande, e os afazeres do dia a dia não me permitiam lê-lo – da forma como gostaria – naquele período. Assim ele lá ficou. Em uma das férias, indo ao interior, coloquei alguns volumes em uma bolsa (Travessuras, no meio deles) e lá fomos nós. Fiquei receoso, porque como estava lendo Caim, de José Saramago, ainda ficou de lado. Isso estava me preocupando. Terminado Saramago, sentei-me sem maiores pretensões com Travessuras na mão. Comecei a lê-lo e fui tomado, não podendo mais deixar de lado. Ainda que tenha que revelar comprei Leite Derramado, de Chico Buarque, e tive que ler no intermédio, pois era, a meu ver um texto rápido (prometo que se der um tempo, um dia escrevo tanto sobre Caim quanto sobre Leite Derramado, pois posso considerar que essa passagem de ano foi frutífera para minhas leituras!).
Terminei de ler. E como esse livro me deixou pensativo.
Ricardo é um peruano que tem um sonho: viver em Paris. E viver simplesmente. Seu sonho é só poder se sustentar na cidade luz e lá ficar. É isso que almeja fazer. E o livro retrata sua história, desde a infância no Peru, até sua passagem para Paris.
Ainda no Peru, na adolescência, conhece a Lily, a Chilenita, uma menina que chegou de fora e que conquistou seu coração apaixonado da juventude. Entretanto, de uma hora para outra, a menina vai embora, sem nunca ter dado uma chance ao menino, que sempre se declarava apaixonado por ela.
Terminada a faculdade, vai a Paris e consegue, depois de um penoso tempo, um emprego freelancer de tradutor/intérprete para a Unesco. Com a amizade que tem com um peruano comunista, faz com que se envolva na passagem de aspirantes à revolução peruana para o treinamento em Cuba. Em um desses grupos que ele vai buscar no aeroporto para o amigo, encontra uma mulher, que é a mesma de sua tenra infância: era Lily. Envolvem-se. Ficam juntos. Mas ela deve partir, ainda que não queira.
Anos mais tarde aparece-lhe a senhora Arnoux, mulher de um homem rico. A mesma Lily. Envolvem-se novamente. Mas ela some. Só irá retornar anos mais tarde em Londres, como mrs. Richardson, casada com um homem ainda mais rico, criador de cavalos. E adivinhem o que? Novo envolvimento. Mas ela some novamente. Ele sempre o “menino bom” e ela sempre a “menina má”, com suas incríveis travessuras.
Voltam a se encontrar no Japão, quando ela é Kuriko, que é casada com um homem ainda mais rico que os anteriores e ainda mais poderoso. Ficam novamente juntos. Mas aí vem a decepção para o “menino bom”. Uma briga imensa, intensa e devastadora. Ele resolve que não pode e nem deseja mais vê-la. Volta a Paris e lá fica.
O resto… acho melhor não contar, para não perder a graça. Contei tudo o que podia, com a vontade de revelar mais e mais. Às vezes estragamos o fim…
O que me fez realmente pensar, foi o amor que sempre foi nutrido por Ricardo. De que forma ele pode manter uma amor intacto, que não se fazia estremecer em momento algum. Que ainda com raiva, dava-lhe sentimentos de companheirismo? São questões que me assolam. Questões que me acompanham. Acho que era o amor verdadeiro, que a boa literatura tratou nesse caso!
Não posso negar que a mulher de mil faces tenha feito muito errado, mas ela era movida também por algo que era maior. E ela também o amava. Mas foi um amor que foi surgindo aos poucos, a partir das demonstrações do “menino bom”. Foi um amor que se tornou necessário, foi uma pessoa que se tornou o porto de todas as tempestades da menina má!
No mais, leiam-no! Aproveitem uma boa literatura deste ganhador do Nobel, com muita certeza dado a pessoa certa! Leiam e pensem também nesse amor incomum do “menino bom” com a “menina má”.


O dia em que conheci Marco Lucchesi

Olho pela janelinha do avião e vejo o Rio se distanciar cada vez mais. Enquanto observava, pensei que somente quem tem essa possibilidade de vista, além de uma própria visão aguçada, pode ver a beleza que é esse lugar. Um lugar que, parado na parada de ônibus, observando a paisagem, vemos construções belíssimas que se ergueram em cima das pedras. Maravilhoso! Sempre que venho saio bobo, saio contemplativo, saio feliz. E com uma esperança perene de sempre voltar.
Essa viagem foi um tanto quanto diferente. E foi pelo acontecimento de hoje. Estava eu à espera de uma mesa redonda, quando anunciaram – professor Álvaro, organizador do evento – o nome do Marco Lucchesi. Confesso que desde o momento que li seu nome do caderno de resumos, fiquei pensativo para saber de onde o conhecia – seu nome apenas. Ao anunciá-lo como professor do Departamento de Letras Português-Italiano, fiquei feliz, pelo laço que nutro com tudo relacionado à Itália. Mas minha surpresa maior foi ver aquele homem, que no mesmo momento me fez recordar a figura de Roberto Benigni o qual por sua vez me fez recordar a mim mesmo num futuro imaginário. E como cereja de bolo (ainda que eu não goste!) veio que ele é membro da Academia Brasileira de Letras. Ele é um imortal. O professor Álvaro disse que ele ficaria bravo com o anúncio posto que é tímido. E posto que para os bons isso pouco interessa, de fato.
Pensei na maravilha que se montava às minhas vistas. Mas, como ressabiado que sou, pensei também na possibilidade de que fosse um intelectual enfadonho, como tantos que conheço, como os que tive a dura vida de aguentar (até mesmo neste evento), como tantos que há por aí; basta chacoalharmos as árvores.
Sua explanação era sobre Goethe e Dante. E para meu encanto, surpresa, fascinação, e outros tantos sentimentos mais, não pude tirar os olhos de sua imagem por um único segundo. E não pude porque não conseguia. E não queria.
Aquele homem, que falava muito claramente, que se expressava à la italiana, poliglota, intelectual de verdade e de bondade, foi o expositor mais maravilhoso que pude presenciar até o momento de minha vida acadêmica. Terminou sua exposição dizendo que “Goethe escreveu o início da Divina Comédia e Dante terminou Fausto”. Estupendo!
Ao terminar sua fala, foi se levantando (nós já tínhamos sido avisados no início), pedindo desculpas, pois ele tinha que sair porque deixara seus alunos na Biblioteca, que era o seu lugar preferido para dar aulas. Dizia que aceitara o convite do professor Álvaro, mas não podia ficar para o debate. Como é brincalhão – fato que pôde ser visto pela sua apresentação! – disse que alguém poderia segui-lo para comprovar que iria mesmo dar aula. E seria uma aula sobre verbos italianos.
Eu fiquei bobo. Ele realmente se mostrou muito bom. Eu estava fascinado.
Iniciou-se a apresentação do outro professor, mas ficou em mim a inquietação. Não pude resistir. Em um ímpeto peguei minhas coisas, sai do auditório e fui me informar onde ficava a Biblioteca. Fui e como sou liso para essas situações, achei o local em uma epopeia, pois de onde estava era longe e eu nunca havia estado no Campus do Fundão da UFRJ. Entrei, fiquei uns segundos à procura, até que o encontrei em pé, falando para alunos que estavam em volta de uma grande mesa, num dos cantos do mundo imenso. Era ele, era Roberto, talvez fosse eu, gesticulando e estilizando a nossa maior arma: a fala.
Fiquei rodeando, dei uma olhada, parei-me próximo a uma estante de livros e não me aguentei. Aproximei-me e perguntei se podia assistir sua aula. Para minha surpresa, ele me olhou e disse:
      É agente da CIA?
      Não! – respondi abrindo um sorriso.
   Então pode! – me responde também sorrindo. Assim como todos os seus alunos.
Puxei uma cadeira, sentei-me e ouvi-o. Falava sobre ópera, pois estavam lendo um trecho de uma italiana. Fez piada, criticando os atores de ópera, daí subitamente me olhou:
      É cantor de ópera? – me perguntou.
      Não...
      Que bom. Mas posso criticar porque eu sou.
Cada novo diálogo eu o achava mais surpreendente.
Quando questionou sobre o passado de um verbo em italiano, ninguém respondeu. Ele então olhou para mim:
      Você?
      Não sei – e todos novamente riram.
Mas o mais engraçado é que ao fim da leitura de um determinado trecho, ele questionou a turma se alguém tinha alguma dúvida. Ninguém se manifestou. Ele disse então:
      Dez reais por dúvida!
Uma moça levantou o braço.
Na hora ele respondeu a ela:
      Ele paga! – apontando pra mim.
Eu acho que meu sorriso não podia contentar-se dentro de meu rosto. Ele é realmente um professor fantástico! Ao final da aula, os alunos se levantaram para ir embora; eu tentei dar uma pequena contribuição, dizendo para a moça que havia feito a pergunta:
      Estou te devendo dez reais!
E todos riram.
Ele sentou-se do meu lado, estendendo sua mão.

Seguimos em uma conversa por quase meia hora, tanto dentro da Biblioteca quanto pelo corredor da UFRJ. Falamos sobre tantas coisas diversas: estudos, viagens, sobrenomes. Mantenho nosso diálogo no campo da memória, para sempre me recordar nos momentos propícios. Mas posso dizer que a vinda ao Rio valeu à pena. Que há ética, que há paixão pelo conhecimento, que há o imortal que é imortal pela forma como é enquanto ser humano. Posso afirmar também que o justo trabalho acadêmico – fiel ao saber pela pureza do saber, também vale a pena. E que, principalmente, viver – vivere – vale a pena!

Poemas nos ônibus

Pois há algum tempo já venho olhando os vidros dos ônibus em Porto Alegre, andando pelos caminhos desta cidade... O que mais me encantou – e isso todos aqueles que são mais próximos a mim podem confirmar – foi a cidade! Ah, esse meu eterno amor pela cidade! O que é a cidade, esse amontoado sem fim de concreto, de prédios, de barulho, de gente? Não sei, não saberei, pois não quero teorizar. Mas que me encanta, isso sim, indubitavelmente.
Mas entrar em um ônibus em Porto Alegre tem me sido uma alegria imensa – desculpando-me do trocadilho piegas e terrível. Mas é que há sempre o elemento surpresa. O elemento que me faz querer sair de casa levando o óculos já na cara, para melhorar o campo de visão. É o sempre querer estar perto do lugar onde a vista alcance o objetivo.
(Como estás poético!)
Sim, isso tudo é pura poesia!
Vi dias desses na Casa de Cultura Mario Quintana, no centro – o ponto máximo de uma cidade – uma frase que, se não me recordo ao certo, tenho o seu caráter principal. Dizia mais ou menos isso sobre Quintana: “Diziam que tudo o que ele falava era poesia”...
Talvez seja essa cidade, em realidade. Talvez seu concreto ilumine as mentes das pessoas, mesmo sem sabermos.
Há um projeto aqui que chama-se “Poemas no ônibus”. São pequenos textos que vão colocados nas janelas, em cartazes, trazendo os poemas selecionados de pessoas que se inscrevem enviando seus poemas autorais. Me encantou desde o primeiro momento! Sou fascinado e tenho andado de ônibus procurando por mais versos que me alimentem a alma e me coloquem um sorriso na cara.
Selecionei dois deles, que me ficaram no pensamento por bons momentos após a leitura:


MOMENTOS

Apaixonada, entrou no ônibus e leu a placa:
“Fale ao motorista somente o indispensável”
Suspirou e então disse: - Eu te amo! 


Milton Braga da Mota Junior

 

PERDA

Ficou-me duro de roer este osso
Outrora – a desventura de perdê-la
Hoje prescindo dos favores dela:
Bebo água limpa do meu próprio poço.

Sofrer até um limite xis eu posso,
Já que torna a alma resistente e bela,
Entre na trama austera da novela
Da vida que escolhi e ainda endosso

Não são os males ditos naturais,
Mas os do coração que doem mais
Há uma compensação, ao que se sabe:

Se aqui não há um bem que sempre dure,
Ou a que nenhum desfeito se misture
Também não há um mal que não se acabe  

José Nedel


Quem quiser ver mais, pode acessar o site da Prefeitura de Porto Alegre e dar uma olhadinha. Ainda mais porque estamos bem próximos do aniversário da cidade... Salve os Quintanas da vida! Salve aquilo que o próprio Quintana sempre viu: poesia!



http://www2.portoalegre.rs.gov.br/smc/default.php?p_secao=57